Espaço do Arquitecto com o Arq. João Álvaro Rocha
Espaço do Arquitecto com o Arq. João Álvaro Rocha - Página 2

Qual o conceito do projecto?
A obra do conjunto habitacional da Rua da Seara, em Matosinhos, integrada no Programa Especial de Realojamento (PER) resulta de um concurso público realizado em 1995, promovido pela Câmara Municipal de Matosinhos. O concurso referia-se à construção de habitação de dois conjuntos habitacionais situados em terrenos distintos, embora fisicamente próximos um do outro. Ambos foram construídos entre 2001 e 2003.
Tratando-se de habitação social, são conhecidas as restrições de áreas e custos que este tipo de intervenções têm que cumprir, pelo que ao serem duas intervenções a construir simultaneamente pela mesma empresa de construção em dois terrenos independentes mas próximos, nos pareceu que poderia resultar numa economia significativa se o projecto fosse tipologicamente e construtivamente idêntico para ambas as situações. Era como se fosse uma espécie de projecto-tipo que deveria ser "adaptado" em função das características de cada uma das situações com a vantagem de, neste caso, ambas serem conhecidas à partida. Por outro lado, esta forma de assumir o projecto como sendo um "sistema" dotado de uma certa flexibilidade tipológica, formal e combinatória, já que os elementos básicos são comuns a ambas as situações, permitia perceber quais deveriam ser as constantes, o "comum", e as variáveis que deveria possuir no sentido de responder às condições particulares de cada um dos lugares. Era uma possibilidade de verificar em que medida o lugar pode, ou deve, ser determinante de uma arquitectura, até porque os elementos físicos que a constituem são basicamente os mesmos. O desenvolvimento do projecto acabou por mostrar que a resposta formal e urbana acabou por ser significativamente diferente já que resulta de um esforço de "adaptação" à particularidade de cada um dos casos. Obviamente que o nosso objectivo essencial era alcançar um projecto bem articulado, funcionalmente bem organizado e formalmente equilibrado, em que as relações entre espaço público e espaço privado fossem bem resolvidas. Estes aspectos conjugados com a já mencionada matriz de "projecto-tipo", referido anteriormente, conduzem a um projecto vincadamente abstracto, aparentemente autónomo na sua relação com cada um dos lugares em que se insere. Na realidade não é isso que acontece, sendo que a sua forma e o modo como se articula com a "realidade" de cada uma das situações, acaba por ser aquilo que os distingue e aquilo que lhes confere um sentido particular. Isto é, as diferenças entre ambos acabam por se tornar mais importantes do que tudo aquilo que possam ter comum, o que, em nosso entender, só pode ser consequência da especificidade de cada um dos dois lugares em que a intervenção se divide. Esta experiência seria posteriormente retomada no Município da Maia em que se viriam a realizar mais oito intervenções distintas mas tendo sempre como referência o mesmo "projecto-tipo". Também neste caso os resultados foram expressivos já que todas elas são diferentes, provando que a especificidade de um lugar é, por si só, suficiente para alcançar uma diferenciação que não resulta de querer "fazer diferente" mas, pelo contrário, é consequência dessa mesma especificidade enquanto modo de alcançar um sentido urbano e de paisagem que se querem coerentes.
Para além destes aspectos e relativamente ao Conjunto Habitacional da Rua da seara, creio que o extracto da memória descritiva do projecto aqui publicada, é esclarecedor sobre como algumas das particularidades do lugar, e não só, acabam por ajudar a configurar o próprio projecto.

Por que razão optou pela cor Branco Algarve?
A opção pela cor "Branco Algarve" resulta da vontade de que os edifícios expressassem uma certa neutralidade relativamente à envolvente construída próxima – como se fossem quase entidades abstractas que, embora estabelecidas a partir dessa mesma envolvente, não tivessem, na sua aparência, qualquer relação directa com ela. Por outro lado, essa escolha permite destacar mais a métrica da estereotomia definida na colocação do tijolo nos paramentos exteriores dos edifícios, contribuindo assim para a definição da sua própria escala. Este era um aspecto duplamente importante já que a escala "modesta" do conjunto foi (é) determinante para uma melhor integração naquela parcela de território de Matosinhos, para além de que a leitura estereotómica da obra era (é) uma condição própria do material utilizado. O tijolo é um produto industrial, seriado e constante nas suas dimensões, pelo que a expressão dos edifícios deveria afirmar essa condição, mostrando que, afinal, um paramento resulta da multiplicação modular de um elemento único (tijolo) assente numa determinada disciplina que o permite ordenar. A "disciplina" é a estereotomia…

Como classifica a utilização do Tijolo Face à Vista na arquitectura nacional?
Não classifico porque não sei classificar. Não sou capaz de "arrumar" a arquitectura, qualquer que ela seja, por materiais. Como já referi anteriormente, a matéria á algo que é parte integrante da arquitectura – não existe arquitectura sem matéria.
Por outro lado, e independentemente de uma certa tradição na utilização de elementos cerâmicos na arquitectura portuguesa, com destaque particular no uso do azulejo, parece-me que nestes últimos 15-20 anos os produtos cerâmicos foram utilizados mais intensivamente embora, quase sempre, sem qualquer tipo de relação com essa tradição e também sem que resultasse de um sentido conceptual próprio. É como tudo se limitasse a um problema de "capa", de aparência, unicamente justificada por razões económicas que resultam do facto da cerâmica, enquanto material, não ser particularmente exigente no que se refere a manutenção. Também foi esse, durante algum tempo, o argumento principal para explicar e/ou justificar a sua utilização o que, apesar de importante, me parece manifestamente insuficiente. O projecto, qualquer projecto, deve assumir esse aspecto como uma outra qualquer condicionante, como o programa, o lugar e/ou o sistema construtivo, devendo equilibra-lo juntamente com todos os outros aspectos que o integram numa linha de acção específica e coerente. O projecto deve justificar-se a si próprio, como um todo.

Tendo em conta a arquitectura mundial, tem alguma obra de referência em tijolo face à vista? Se sim, qual/quais?
Poderia enunciar bastantes obras, extremamente interessantes, que fazem parte de um vasto e importante património arquitectónico universal. Enunciarei apenas duas, não só porque utilizam tijolo mas, fundamentalmente, porque constituem uma referência importante no nosso trabalho:
– Peter Behrens – Fábrica de Turbinas AEG, Berlim (Alemanha) – 1908-1910
– Mies van der Rohe – Lange & Esters House, Krefeld (Alemanha) – 1927-1930

Tem em conta os problemas ambientais e de sustentabilidade na concepção dos seus projectos?
Claro que sim! Os aspectos ambientais e de sustentabilidade sempre estiveram presentes na arquitectura. A diferença para a actualidade é que hoje a sua abordagem se converteu numa espécie de moda na afirmação daquilo que é "politicamente correcto", atingindo um grau de sofisticação que me parece excessivo e desajustado. A resposta a esses aspectos parece ter-se convertido num fim em si mesmo, numa pura exibição tecnológica sem sentido e economicamente completamente disparatada. Acredito em coisas muito mais elementares e simples, que a história e a tradição nos ensinam, tais como começar por saber implantar bem um edifício, saber tirar partido da orientação solar, conhecer a geografia de um lugar e perceber como a articular bem com o que se pretende realizar, propor técnicas e sistemas construtivos adequados, etc.
Recordo-me agora do que dizia Adolf Loos quando referia que sempre que aparecesse uma nova técnica ou tecnologia que fosse útil ao homem, à sua vida, então a arquitectura deveria ter a capacidade de a incorporar. Aqui a palavra "incorporar" significa integrar, fazer parte de uma acção disciplinar muito mais ampla e abrangente e não limitar-se a ser algo que pura e simplesmente é acrescentado. A arquitectura não é um somatório de coisas, é, pelo contrário, a possibilidade de se estabelecerem relações entre as coisas de modo a atingir-se uma certa significação.

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Catálogo Cerâmica Vale da Gândara

Tijolo Face à Vista Branco Algarve